sexta-feira, 28 de novembro de 2008

PSIQUÊ

Carlos Savasini

Não digas quem sou
não permitas
que o certo me atinja
que o feito me acalme
que a ciência me explique
que o ego me exponha
que o outro me entenda
que a letra me ateste.

Não digas o que preciso
não exclames
o questionário neurológico
a dúvida muscular
o toque inatingível
o tato inexpressível
o fato imponderável
a falta inconseqüente.

Não digas o que sou
desdigas
oculta o holofote
cala o microfone
cerra o livro
e deixa o incerto
a questão
a resposta pairando tão perto
e tão longe.

(21/11/2008)

DECEPADO

Carlos Savasini

Um bicho e o beiço
o beijo e a boca
a beca e um bicho
a bossa e o banco
o desejo, o meeiro
o beiço e a boca
o desejo e o corpo
a viola, vísceras e peito
o corpo, o tambor
o beijo e as coxas
o peito e o peido
o cunilíngua frustrado.

(12-13-21/11/2008)

domingo, 23 de novembro de 2008

SÃO PAULO, SÃO PAULO

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São Paulo é, de fato, uma cidade surpreendente. Há sempre uma novidade e uma interferência que marcam cada olhar a cada esquina e a cada avenida.
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Nesta sexta feira, saindo de uma mesa redonda da Balada Literária, lá no Centro de Cultura Judaica, contemplei mais uma interferência urbana em plena Av Sumaré. Tudo pela sorte de ter passado sobre a avenida, no mesmo pontilhão onde os aventureiros de plantão faziam rapel até alguns meses atrás. De cima do viaduto vi uma sinalização de solo diferente, que dizia COMPRAR, em letras garrafais. Que estranho ! Só depois vi na seqüência COMPRAR - PARA - TER - PARA - SER - PARA - COMPRAR, tudo na faixa da direita da Av Sumaré. Bem louco !
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As fotos que tirei estão logo aí (para que ninguém diga que foi delírio meu) :
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Bjs e abçs
CS

sábado, 15 de novembro de 2008

ILHA DA FANTASIA

Carlos Savasini

No reino das causas urgentes
todo pedido é em vão.

No reino das coisas injustas
todo perdão é em vão.

No reino das causas mesquinhas
toda justiça é em vão.

No reino das coisas palpáveis
todo sonho é em vão.

No reino das causas privadas
todo solidário é vão.

No reino do faz de conta
todo verso, indigesto, não faz sentido algum.

(09/11/2008)

DE ACORDO

Carlos Savasini

Renda-se ao encanto
o belo escorre pelos cantos
pelos dedos, pelos dentes
pelas bocas, pela pele, pelas coxas
pelos pêlos, caracóis e novelos
pelas teias que enroscam
pelos cantos que escorrem
pelo encanto que rende,
renda-se.

(09/11/2008)

TRAPOS

Por Binho Santos, Bruno Furlan, Carlos Savasini, César Veneziani, J R Lima, Mavot Sirc, Osvaldo Pastorelli e Vitória Paterna.

O vento vasculha as gavetas,
agoras guardados nos trapos,
toadas de longas jornadas
cantadas nos tragos das horas
beijos – abraços – carícias
e o tempo passa
fodas – amassos devassos
e o tempo derrete
e minha alma continua estática
e furacões se avizinham
o coração se distancia
no tempo que não volta
na saudade que se avizinha
balançando as folhas
soltas ao sabor da brisa
cinzas das brasas
queimadas na ilusão das flores
o sol se põe, o sol nasce
o crepusculaurora
não é homem, nem mulher,
nem dia, nem noite.

O vento permeia madrugada, crepúsculo
escreve versos extensos nos trapos
entrega intensas carícias vazias
com sabores ilusórios do nada
o vento aquece o sexo
dedilha as fibras dos trapos
estira-se em caminhos
e a cada passo
fazem-se as horas.

Dormimos abraçados
no acalento do vento,
fecham-se gavetas
saudades ao vento
trapos de nós.

(08/11/2008)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FARTURA

Carlos Savasini

Lauta mesa, fortes pés
alvo linho, caldo forte
copos fracos, cacos grossos
boca insana, mentes fracas
pensamentos não são o que se come.

(08/11/2008)

TRINCOS

Carlos Savasini

Na geografia do teu corpo
bisbilhoto fechaduras
acaricio teus capachos
incendeio os teus rodapés.

Na geografia da minha loucura
forço a maçaneta
arranco as dobradiças
invado o teu desejo.

Na geografia do teu desprezo
a luz por debaixo da porta
o som da TV no teu quarto
e a solidão do lado de fora.

(08/11/2008)

ESPARTILHO

Carlos Savasini

Sem barriga e sem vergonha
de ser feliz intensamente
até que o fim separe o corpo do sangue.

(08/11/2008)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

PROCISSÃO

Carlos Savasini

“The dream is over”
John Lennon


Pedestres envoltos por carros
falanges envoltas por meias
risadas matreiras e sarros
carrancas e faces tão feias.

Os passos dobrados, marcados
na pressa que aflige quem sonha
desejos perdidos, surrados
insônia de pregos na fronha.

Cidade que embebe os viventes
rotina embalada em desprezo
sifão, rodopios e mentes
em nada encontrando aconchego.

Enfim um momento que fere
o sonho acabou, não espere.

(03/11/2008)

VIAGEM

Carlos Savasini

A flor da papoula
e o mistério do oriente
divagam nas mentes.

(02/11/2008)

HÁBITO

Carlos Savasini

A prática que amolda o artesão
o hábito que veste e faz o monge
o treino que conduz ao campeão
e a conduta que marca o desprezível :
tudo é questão de postura e escolhas.

(02/11/2008)

domingo, 9 de novembro de 2008

CRIAÇÃO, ARRASTÃO E SARAU

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Ontem foi tudo de bom : criação na Casa das Rosas, 1º Arrastão Poético na Av Paulista e sarau no El Malak.
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Estou cada vez mais orgulhoso deste grupo chamado Rascunhos Poéticos !
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Vejam mais detalhes no blog do Rascunhos no endereço http://rascunhospoeticos.blogspot.com/
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Bjs e abçs
CS

sábado, 8 de novembro de 2008

GUILHOTINA

Carlos Savasini

Com quantas patacas se faz um quinhão ?
Com quantos shillings e pennies se faz uma libra ?
Com quantos torpedos se faz um poema ?
Com quantos petardos se mata um inocente ?
Com quantas moedas, com quantas verdades e com quantas doses de
...................................[realidade se mata um poeta ?

(01/11/2008)

CASCAS

Carlos Savasini

Carros afeitos de rodas
desfeitos de eixos
ausentes de gás
lentos somente de fato
velozes nas lentes infantes
audazes nas pistas da sala
vivazes nos tempos já idos
memória de ferro e ferrugem
saudade jamais cicatrizada.

(01/11/2008)

ESTAMPA

Carlos Savasini

Todas as cartas que não enviei
todos os beijos que não selei
todos os abraços
xingamentos
questões
e vaias.

Todos os momentos guardados
todas as faltas caladas
coleção
que de hoje em diante começo
a rasgar.

(01/11/2008)

PROCURA NO MANGUE

Por Carlos Savasini, Tyta Dutra e Vitória Paterna

Mangue, procura, secura
cadê o ar ?
Cadê você ?
Batidas roucas, secas
vozes praguejantes.

Sortilégios dos Orixás
deixei meus passos nas pedras do rio
sussurrei promessas para as montanhas
mas você, cadê ? Secura ...

Aonde anda o vento ?
o trás-montano que atravessa
além do rio, além do mar, além de mim
o peito bate aonde o ar
Hermes gagueja e não traz você
mas aonde anda Iemanjá que manga e come pedaços
devolve desgostos, gostos ... você

(31/10/2008)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

FÍGADO

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli

Palavras escorrem no bife suculento
deslizam na espuma do meio-dia
esfumaçam-se na espiralada fumaça
na quietude do cigarro pousado no cinzeiro
no isqueiro
na brasa corrosiva
em carvão
de fogo e pó.

Palavras silenciosas
regurgitadas nas buzinas
no silêncio dos olhos
inquietando a vida imóvel
calando
calos na ponta da língua
câncer na ponta dos verbos
tumores nas falas insones.

Dormência
em silabas fechadas
entre os dentes
ressoando rimas
de pós almoço.

(01/11/2008)

DOMINGO

Por Carlos Savasini, Marisa del Santo, Osvaldo Pastorelli, Selda Roldan e Vitória Paterna

Dia de política, dia de sol
dia que começou faltando algo
que busquei encontrar em vão
mas, que ao aqui chegar,
desanuviou, clareou, e agora ?

Volto pra casa revigorada
feliz e completa com o carinho
recebido, devolvido e pedindo bis
porque amigos
almoço e momento
pausa do ontem
domingo unidos
risos
conversas
músicas
vinho
alegria
a semana
que anuncia
grita
e vocifera,
pede o próximo final de semana.

Bis, bis e bis !

Queremos mais vinho, Evoé !
Queremos mais música !
Queremos musas e poesias !
Queremos outros domingos com os amigos !

(26/10/2008)

SALMÃO E AMIGOS

Por Carlos Savasini, Marisa del Santo, Osvaldo Pastorelli, Selda Roldan e Vitória Paterna

Palavras nos raios da tarde
cigarros na mesa
taças vazias
som de blues amenizando
sentimentos que se prolongam
cigarras
cantos que anunciam chuvas
fins de tarde e sentimentos
tormentas e quase chuva
nuvens e olhos
marés
ar que sufoca a tarde que finda
cão a ladrar na espera da lua
na sacada nossos vultos são musica
a passarinhar asas de ternura.

Nossos vultos e a tarde
vívidos no horizonte
procuramo-nos no acaso
não é o morro dos ventos uivantes
mas brinca, dança, corre entrando
na janela ... e saindo pela porta
vai deixando a casa arejada
um encanto que perdura, mas ...
não tanto com os amigos, nossos
companheiros selecionados, Carlos e Zi
Osvaldo, Selda, Vitória e Marisa
brindamos a amizade
a vida e a poesia
que eterna viverá
sempre nas canções
e nas letras
poéticas
de amigos
e taças
e nós.

(26/10/2008)

PLENITUDE

Por Binho Santos, Bruno Furlan, Carlos Savasini, Kátia Dutra, Osvaldo Pastorelli, Samara Sieber, Sergio Jardino e Yolanda Queiros Parreira


I

O êxtase é o passo que atinge o paraíso
o grito é o gemido que transmuta
o gozo a extensão do divino
a prostração o descanso dos titãs
os bacanais deusificados de Baco
a melancolia de Penélope
toda a virilidade de Hereu
todos os amores pagãos
todos os meus poros abertos
assim como minha boca e minhas pernas
no momento em que você se torna meu.

Estou em êxtase ! Estou vivo !
e grande é a vida :
seja ela triste,
seja ela alegre,
seja ela imensa : como você.


II

O êxtase é o ouro que sangra do barro,
o coro que vibra no espaço entre as peles,
o deus que devora seus filhos temidos,
a onda que espuma as águias da vida.

E quem sobrevive dessa luta
sem tempo ?
Não há quem não resista
seria ir contra a sua natureza
o tempo pode ir
mas a vida e a alma prevalecem.

A vida só é vida
quando o gozo
une os corpos
dilacera a terra
semeando o esperma vida.

Se o êxtase une as carnes
se a mente liga as almas
carne e alma formam vidas
vidas juntas numa história.

Quem vê a vida com grande apresso
tem a favor a verdadeira fórmula
e terá os frutos conforme sejam canalizados
para o seu bem
somando-se aos demais.


III

O êxtase é o gosto que espessa
o gesto é a mão que se eleva
o divino é o tremor que ejacula
o gozo é a estátua que fica
o êxtase torna-me vivo
do gozo nasceu a vida
dos amores a ferida
que em meu corpo fez morada
mas, se em mim mora esta mágoa,
se em mim jaz a cicatriz
o que importa é a rubra água
que me circula e faz feliz.

A vida – tão cheia de morte –
em mim basta.

(25/10/2008)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

666

Carlos Savasini

Se no dia eu for cremado
não toquem a Ave Maria
ou Jesus, alegria dos homens
toquem rock e toquem fogo :
os anjos do céu não tocam guitarra.

(25/10/2008)

PANDORA

Carlos Savasini

Há que se ter peso
tensão e volume
volúpia e tesão
corpo e presença
palco e contorno
detalhes, texturas e timbre
dinâmica, toque e pegada
se não
não há tamanho que engane aos ouvidos
e caixas que enganam pandora
por pouco, por muito ou nenhum tempo.

(25/10/2008)

MOTO-PERPÉTUO

Carlos Savasini

Sons que ficam e ficam e ficam
repetem, ressoam, re-tocam
repetem e soam e tocam
ressoam no som da cachola
e que ficam e ficam e ficam
no som de si mesmo
no som de mim mesmo
e que ficam
e ficam
que ficam
no som
na cachola
em si mesmo.

(25/10/2008)

EIS QUE TEM

Carlos Savasini

Tem quem precisa calar-se
e quem precisa expressar-se.

Tem quem precisa viver
e tem quem jamais vai morrer.

Eis que tem quem surge do além
e quem não vai mais além.

Eis que tem quem não choca ninguém
e quem não está nem aí.

Eis que tem quem choraminga
e quem mira e acerta o torpedo.

Eis que tem quem precisa
e eis que tem quem já é.

(19/10/2008)

domingo, 2 de novembro de 2008

HÁ QUE TER SABOR

Carlos Savasini

Jardim e frutas
jardim dos sabores
flores de amoras
flores de orvalho, perfumes, sabores
flores de gostos, pitanga e avelã
flores de odores
sem lírios nem cravos
somente sabores
de flores, de frutos, de amores.

(18/10/2008)

EMBEBEDAI-VOS

Carlos Savasini

Dentre os sabores
dentre as texturas
dentre as delícias que percorrem a língua
sabores que envolvem
acompanham delírios mentais
os pudores do corpo
as angústias do coração.

Dentre os sabores que ficam
texturas que agarram
delícias que embebem e pedem mais
pedem bis e goles a mais
e goles a mais
e goles a mais.

(18/10/2008)

SÔFREGO

Carlos Savasini

Sobre a mesa sirvo-me
intensa e vorazmente
sobre a mesa sirvo-te
por puro e denso deleite
sobre a mesa sorvo
seiva densa e doce
sobre a mesa sirvo
doçura sem talheres
sirvo o teu sabor
ao meu sabor
e sobre a mesa
o deleite
ao teu corpo
ao meu corpo
ao bel prazer.

(18/10/2008)

VALA

Por Binho Santos, Carlos Savasini, Osvaldo Pastorelli e Tyta Dutra

Profunda esta vala
da qual saltaremos:
há flores castanhas
nas linhas das tuas mãos
há blocos de carvão
nas grutas dos teus montes
há muros que ceifam
olhares que não chegam
há cercas que marcam
agruras sem fontes

pós-escalados duros muros
mãos que sangram empedradas
olho em torno e vejo o poço
que do castelo é o paço
os tijolos estão mal postos
espero-os desabar sobre mim
na inércia do momento
tempo de cortar punhos
renascendo as mãos
tempo de tingir beiras
depredando os nãos
tempo de forjar facas
fios que aguçam navalhas
corte a afundar a vala
sorte não que aceita o acaso

(18/10/2008)