quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

PERFEITO ?

Carlos Savasini

Os afazeres que aguardem
faltam minutos e dedos
anseio, vontade e querer.

O mundo que aguarde
faltam mãos e pés
querer, vontade e desejo.

Que o acaso deixe de pouco caso
encontre coragem e case comigo
componha compasso aleatório
e nem sequer avise a data,
de afazeres já bastam agendas
de acertos já basta este mundo.

O esquadro que aguarde
pouco a pouco tudo encaixa
e desmorona novamente.

Há prazer em compor o inconcebido.

(30/12/2008)

PARIDEIRA

Carlos Savasini

Miçangas de flores
fruto e sementes ao vento
propagam o novo.

(30/12/2008)

ALVORADA

Carlos Savasini

Aguardo o novo dia esperançoso
nas gotas de um orvalho irresistível,
marés de um tempo aedo e tão gasoso,
disforme, inspirador, imprescindível.

Espero o fato novo indiscutível,
o rosto de esplendor impetuoso,
aguardo o novo dia esperançoso
nas gotas de um orvalho irresistível.

Confisco a sombra, o resto, o pegajoso,
o lixo que os receba indestrutível,
liberto as mãos que elevo ao céu vistoso
ao sonho cristalino, impreterível,
aguardo o novo dia esperançoso.

(30/12/2008)

VERÃO

Carlos Savasini

Andorinha só
não faz verão e não dança
só no meu jardim

(30/12/2008)

POR MERECIMENTO

Carlos Savasini

Vagabundo,
vagabundo
e vagabundo
com todo direito de ser vagaroso,
lento, lerdo e lesado
nestes dias de paz conquistada,
nestes dias de folga atrasada,
vagarosa,
vagabunda
e bem vivida.

(30/12/2008)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O AMANHÃ

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli


À Caroline e Michel


Sorrisos espalmam
no brilho dourado
da aliança da felicidade
que surgem, que aplacam
que marcam nos rostos
tudo o que brota do ser
criando outro ser
no brilho dos olhos
na página da história
sendo hoje
o passado de ontem
sempre vivo
nos corações
daqueles que amam
a eterna vida
que sempre posterga
o presente em memória
do amanhã sempre ausente
que rasteja enquanto o hoje
constrói o futuro.

(26/12/2008)

LUMINOSO

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli

Por amigos vale tudo
ou quase
tire o som agudo
a farofa, o pescoço, as miçangas
tragam sinfonia e diamantes
misturem tudo no liquidificador
da vida
teremos assim
a vida eterna
nos sons
e nas histórias
passadas de voz
em voz
de abraço
em abraço.

As memórias mesclam-se nos olhos
nas visões de cada qual
de cada amigo
rindo de cada maremoto
transpassados juntos
na mesma lágrima
onde o tudo
vale o nada
e o nada
somos nós
nos abraços
juntos rindo
do passado.

(26/12/2008)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

APARÊNCIA E CASCA

Carlos Savasini

Pálpebras abertas
pupila estatelada
: escuridão.

Nem todos os gatos são pardos.

(25/12/2008)

QUASE DEUSES

Carlos Savasini

Fim de festa, fim de feira, o amanhã
não existe em dias tão bons
luminosos feito o hoje
que ofuscam
cegam olhos para nunca
deixar de alimentar os nossos sonhos.

(24/12/2008)

QUASE HUMANOS

Carlos Savasini

Há datas que marcam
e recordações que avoam.

O aniversário é dele
mas a festa é nossa.

Saudações à todos
aos nossos
e aos não nossos.

O rancor,
quem sabe e se for,
só no ano que vem.

(24/12/2008)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

CUIDAR-SE

Carlos Savasini

À Dora Dimolitsas

Se todos os problemas fossem esses
e todos os problemas fossem teus,
se todas as quirelas desta vida
regassem sempre o mesmo teu jardim
rasgando pouco a pouco as tuas flores
de pouco valeria o meu silêncio
de pouco valeria o meu alerta
de pouco valeria o que te digo.

Se falo alguma coisa neste instante
se falo e corro o risco de me expor
se calo e deixo o risco consumir-te
pondero o que devia já ter dito
seria mais correto ao tempo exato
e ter te protegido do enxovalho
e ter te protegido do excomungo
e ter te protegido da batalha.

Passado o meu silêncio tão covarde
passados tantos quases sem ter feito
passados tantos verbos e a chibata
que açoitam cá por dentro a consciência
e sangram sempre em mim na minha ausência
alerto que o cuidar-se é necessário
alerto que ao expor-se o risco é certo
alerto que é preciso fortes pés

Atente sempre ao fato de que os olhos
atentos sempre miram o que fazes
atentam sempre ao certo e aos tropeços
alertam sempre a língua que dispara
petardos que destroem quem fraqueja
maldizem quem não busca proteger-se
maldizem quem não busca preservar-se
maldizem quem não tenta se elevar.

E digo que retenha ensinamentos
e digo que absorva sempre o sumo
e digo que destile o teu melhor
: da nobre safra faz-se o nobre vinho
: pegadas certas abrem horizontes
destino que é traçado passo a passo
destino que é buscado dia a dia
destino que se alcança por querer.

Se todos os problemas fossem poucos
se todos os percalços fossem nada
se todos os tropeços fossem falsos
e todo encantamento uma ilusão
ninguém alertaria os teus ouvidos
e nada se faria necessário
e nada soaria tão preciso
o nada é que seria precioso.

(23/12/2008)

0

Carlos Savasini

Zero a esquerda não vale
à direita nem sempre tem valor
figura de peso relativo
completo ao dizer cheio
expondo o próprio vazio.

(20/12/2008)

A COR DO SANGUE

Carlos Savasini

Nada de amor etéreo
musa ou ninfa em pedestal profano
amor na idéia, ímpio, puro, imaculado
e nada nas mãos que se toca e afaga.

Nada disto faz ninguém completo,
a carne vive de sangue e saliva.

(20/12/2008)

MÁCULAS

Carlos Savasini

De tantas folhas de papéis multicolores
azuis, anis, amarelos, brancos e roxos
nunca nem nenhum mimetizou o da minha pele
rasgado em mil pedaços de chagas e quelóides
colados apenas na espera de alguma morte.

(20/12/2008)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

SECRETO

Carlos Savasini

À Rosangela Gaspareto

A juventude que transborda
o brilho nos olhos
cada palavra que transcreve grafa
marca toda poesia e vive
cordialidade em verso e gestos
presença e simpatia.

Em cada pé e passos
tênis All Star e cadarços
pés que trazem companhia tão querida
presença hoje tão constante e sempre
eterna pela intensidade e carinho
que se expressa em teu olhar.

Seja bem vinda hoje e amanhã
Rascunheira mais nova do pedaço
Rascunhos uma vez na vida
é Rascunhos para sempre.

(20/12/2008)

VIVO

Carlos Savasini

Antes que o sono consuma
o consumo do corpo
consumo o corpo
o braseiro do sono
chaleira de sonhos
enquanto arde a brasa
queimando o que sobra.

(19/12/2008)

domingo, 21 de dezembro de 2008

RECEITA DE NATAL

Carlos Savasini

1 l de leite
3 kg de pão
óleo de milho
papel toalha
açúcar refinado
e canela a gosto

embeba no leite o pão
frite em óleo fervente
não deixe encharcar
passe no açúcar
polvilhe a canela
receita certeira
e gosto de natal

a nossa, entretanto, dispensa tudo
embebe um corpo no outro
lambuza um corpo no ouro
polvilha um corpo no outro
presente que é dado um dia após o outro

(13/12/2008)

POMBO CORREIO

Carlos Savasini

Meia luz entre os dedos e a carta
o olhar que suspende o segundo
as letras que escrevem o amor
: o suspiro descreve a saudade.

(13/12/2008)

SONHO VIDENTE

Carlos Savasini

Cenários de diques num solo lacustre
as terras são baixas e o corpo se eleva
emerge do jogo de sombras e luz
pegadas que buscam da sala obscura
os brilhos que valham segredos vividos.

Nas cenas reais de mil corpos disformes
contornos que vem da vertente e da verve
soergue das manchas das tintas do mar
sublime nas vestes, no jogo de cena
persiste nos brincos, no brilho e na busca.

Por certo que as marcas derramam pegadas
que o barro da terra oferece tinturas
as mãos que misturam e mesclam nuances
conformam cenários de diques e mares
contornos palpáveis de cenas distantes.

(13/12/2008)

SENSO

Por Binho Santos, Carlos Savasini e Marisa del Santo

Que todo consenso seja idiota
que toda foda seja bem dada
e que toda morte seja completa
consenso do neutro
na força das mãos ...
foda de sonhos,
coragem, paixão ...
morte das facas,
asas do sim vicejarão ...
consenso do injusto
na sociedade vã
vingança na foda frustrada
na noite do homem mau
morte à certeza
de que tudo é bom
ou não.

(13/12/2008)

4º PRÊMIO COOPERIFA - SANCHO PANÇA

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Vai aqui um registro do Sancho Pança, a memória fotográfica deste prêmio que tanto me orgulha !
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Obrigado Cooperifa, Rascunhos Poéticos e Zi, a Musa !
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Beijos e abraços
CS

sábado, 20 de dezembro de 2008

CERTEZAS

Carlos Savasini

a meia
toalha
o chinelo

a calcinha
o pente
a escova de dente

detalhes que fora do lugar
fazem de ti tão presente

(07/12/2008)

RECLUSÃO

Carlos Savasini

A luz que se afasta daqui
na cor que dilui a da malha
na faca que finca o faquir
sê flor que na volta me valha.

(07/12/2008)

LANCE

Carlos Savasini

Bola murcha não rola
não quica, não marca, não fica
pois enche o meu ego e me diz
que o peito ainda me esfola.

Fora os petardos menores
menos os dardos, mais os torpedos
aplaca o meu ego, me afronta
e lembra que o peito ainda me esfola.

Rola um passe certeiro
deixa-me à frente do gol
lembra-me que o lance foi teu
e que o peito ainda me esfola.

(28/11 – 07/12/2008)

ALGO DE NUVEM

Por Binho Santos, Bruno Furlan, Carlos Savasini, J R Lima, Sergio Jardino e Vitória Paterna

Qual o peso da fumaça que admiro ?
Verto esse ar claro e híbrido,
sigo um curso não muito nítido
até chegar às tuas nuvens,
fumo teu olhar se despedindo ...
mais do que me sufoca
do que me embarga a garganta
são teus passos em descaminhos
abrindo atalhos cinzas para minha solidão.

Respirar, só existir
caminhando no chão ainda quente
os pés cansados secam o chão
rolo compressor feito de gente
rolos de palavras que se evolam
em contradição com as pisadas
elevam a condição certa-quadrada
esquecem, da pedra da estrada
pedras sublimam voluntariosas
empoeiram o corpo-carbono
esbarram no barro de argila
provocam coceiras nos pelos nasais.

Meu corpo agora está estático
minha vida se completa com
o incompleto
eu prossigo e vejo o céu
estrelado
só posso dizer que te quero.

Que fragmentos te recuperam ?
Fumaça ... do que sou
do que éramos ?

(29/11/2008)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

4º PRÊMIO COOPERIFA

Galera,

É com a maior honra do mundo que recebo hoje o prêmio Sancho Pança - Aprendiz de Sonhador, na 4ª edição do Prêmio Cooperifa.

A premiação será no QG da Cooperifa, o Bar do Zé Batidão (Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Piraporinha, zona Sul de São Paulo), a partir das 21:00 horas. Para quem for, é bom chegar cedo.

A relação completa dos premiados está no blog do Sergio Vaz (http://www.colecionadordepedras.blogspot.com/).

Bjs e abçs
CS

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

MESCLA

Carlos Savasini

Ela, branquela, por vezes se enrubesce
e na mescla de sangue com pele
termina pantera, termina rosada.

Ele, negrão, por vezes se enrubesce
e na mescla de sangue com pele
termina pantera, termina tição.

Eles, mesclados, por vezes se enroscam
e na mescla de folha e carvão
desenham panteras, terminam no chão.

(29/11/2008)

A CORDA QUE ESGARÇA

Carlos Savasini

o mito e a mente
o sonho e o corpo
a fé e o concreto

a falta de essência
e a falta de fibra
e a falta de brio

o mundo que esgarça
qual ponte sem base
qual homem sem crença

(29/11/2008)

FIO

Carlos Savasini

Pele em tensão
aresta de corte
o sangue que escorre.

A poça é vermelha.

(29/11/2008)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CAI, CAI NOEL

Carlos Savasini

Laços vermelhos, pinheiros e argolas
pingentes de luzes, laços, trenós
flocos de neves, de nozes, Noel,
tudo desfaz-se na festa de reis
mês de dezembro de véspera e fim.

(24/11/2008)

CÓDIGO

Carlos Savasini

Faça-se a lei
e fizeram
do hábito a moral
do costume o código
das leis a sentença
das penas, prisão
do cárcere a morte.

Faça-se a lei,
e fizeram.

(24/11/2008)

domingo, 7 de dezembro de 2008

SÃO PAULO DAS LUZES, DAS FLORES E ODORES

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Estação da Luz de tantos migrantes, imigrantes e populações inteiras.
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Viveiro Manequinho Lopes, lugar pouco conhecido do Parque do Ibirapuera.
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Mercadão de São Paulo : mais uma obra-prima de Ramos de Azevedo.
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FORJA E FOGO

Carlos Savasini

O dilema do fim é o depois,
enquanto há certezas
rasgam-se os rastros.

(23/11/2008)

LSD

Carlos Savasini

léxicos sinérgicos demais
sinistras deformações levianas
deturpam litúrgicas sinestesias
deflagram lições sinuosas
seiva deflorando libido
lesado silêncio desconexo

(22/11/2008)

ANTROPOMÓRFICO

Carlos Savasini

Os pés do tamanho do mundo
as bocas cantando as estrelas
e os sonhos do porte do céu.

Abaporu gigante e sertão.

(22/11/2008)

sábado, 6 de dezembro de 2008

A NEGA, O NEGO, A COR E A PROLE

Carlos Savasini

Do beiço gigante ao peito intumescido
o pé de planta planta um renitente
em qualquer canto que se leve esta gente.

(22/11/2008)

OPERÁRIOS

Carlos Savasini

À Tarsila do Amaral

De nota em nota
a ópera se orquestra
o coro se apruma
na ode operária.

De rosto em rosto
o povo se encaixa
na escala humana
da ode operária.

De gota em gota
o rosto aparece
o vizinho de alguém
na ode operária.

De suor em suor
o concreto soergue
no dinheiro que erige
da ode operária.

De pincel em pincel
o quadro-painel
da ode operária.

(22/11/2008)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

GAIOLA DE FARADAY

Carlos Savasini

Sonares e antenas
biscates
captam tudo o que presta
e o não.

O talvez já era.

(21/11/2008)

RITUAL

Carlos Savasini

Na quase partida
o impasse :
o parto
ou aborto.

(21/11/2008)

PSIQUÊ

Carlos Savasini

Não digas quem sou
não permitas
que o certo me atinja
que o feito me acalme
que a ciência me explique
que o ego me exponha
que o outro me entenda
que a letra me ateste.

Não digas o que preciso
não exclames
o questionário neurológico
a dúvida muscular
o toque inatingível
o tato inexpressível
o fato imponderável
a falta inconseqüente.

Não digas o que sou
desdigas
oculta o holofote
cala o microfone
cerra o livro
e deixa o incerto
a questão
a resposta pairando tão perto
e tão longe.

(21/11/2008)