quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

CUIDAR-SE

Carlos Savasini

À Dora Dimolitsas

Se todos os problemas fossem esses
e todos os problemas fossem teus,
se todas as quirelas desta vida
regassem sempre o mesmo teu jardim
rasgando pouco a pouco as tuas flores
de pouco valeria o meu silêncio
de pouco valeria o meu alerta
de pouco valeria o que te digo.

Se falo alguma coisa neste instante
se falo e corro o risco de me expor
se calo e deixo o risco consumir-te
pondero o que devia já ter dito
seria mais correto ao tempo exato
e ter te protegido do enxovalho
e ter te protegido do excomungo
e ter te protegido da batalha.

Passado o meu silêncio tão covarde
passados tantos quases sem ter feito
passados tantos verbos e a chibata
que açoitam cá por dentro a consciência
e sangram sempre em mim na minha ausência
alerto que o cuidar-se é necessário
alerto que ao expor-se o risco é certo
alerto que é preciso fortes pés

Atente sempre ao fato de que os olhos
atentos sempre miram o que fazes
atentam sempre ao certo e aos tropeços
alertam sempre a língua que dispara
petardos que destroem quem fraqueja
maldizem quem não busca proteger-se
maldizem quem não busca preservar-se
maldizem quem não tenta se elevar.

E digo que retenha ensinamentos
e digo que absorva sempre o sumo
e digo que destile o teu melhor
: da nobre safra faz-se o nobre vinho
: pegadas certas abrem horizontes
destino que é traçado passo a passo
destino que é buscado dia a dia
destino que se alcança por querer.

Se todos os problemas fossem poucos
se todos os percalços fossem nada
se todos os tropeços fossem falsos
e todo encantamento uma ilusão
ninguém alertaria os teus ouvidos
e nada se faria necessário
e nada soaria tão preciso
o nada é que seria precioso.

(23/12/2008)

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