domingo, 31 de agosto de 2008

PORÃO

Carlos Savasini

Sóis outonais, rinocerontes e cabras
paisagens que habitam o sótão
roupas e meias que entopem armários e malas
miragens e ecos, tropeços e cacos
cascas de peixes, guelras e arquipélagos
mares de vultos, lençóis e preguiças
listas de promessas, presentes, viagens
tudo que turva e revolve o sono
que hospedam o sonho, a língua, o carvão
o cheiro de tabaco na rosa
na pedra e no povo
no irmão
a estrela libertina
mensagem
de pipas no céu de guerreiros
de vivos e mortos que moram
que balbuciam
e rezam preces aos pés dos ouvidos.

(24/08/2008)

SOBRE A ARCA E O ARCO-ÍRIS

Carlos Savasini

Se for para ser, que sê,
bebe na fonte e respira
almeja nada senão o cume nublado
o ápice audaz que roga destrezas.

Se for para ir, que vai,
rasga os percalços, sublima o desprezo,
busca o pote que esconde o segredo,
o longe que alcança quem faz por merecer.

Se for para ser, que vale,
merece os louros, as luzes, olhares,
sê antes de tudo o grão,
a borboleta que bate o furacão.

Se for para rir, que sê,
masca o pudor, morde o rancor,
sopra o correto e chuta a miragem,
todo presidente, embaixador e o raio que o parta.

Se for para ser, que sê
cisco na vista e colírio
tapa na cara e carinho,
essência, verdade, objeto e pão.

(24/08/2008)

OLIMPO

Carlos Savasini

Asfixia que contorce e embarga a voz
afonia que discorre errante entre os dentes
fuligem que gagueja e trava a glote
fonema que engole a palavra
pigarro que cospe bala sem pólvora
o tiro sem guerra
o peito que murcho
o discurso
mudo e vazio se cala
mata sem ar e contorce
o corpo convulsionado em gestos
a pele rasgada em desejos
nas mãos que deliram nos ares
rodopios
gagueira e afonia.

Quando o gênio fala
que morram todos os mortais
só por deuses o céu se curva.

(23/08/2008)

ALQUIMISTA

Carlos Savasini

Nem o azul mais profundo
nem a luz mais intensa
nem o céu mais oceano
nem o mar mais celeste
nem o sol mais diamante
nem a pedra mais brilhante
nem o astro mais reluzente
nem a mente mais delirante
nem o desejo mais inclemente
nada, sequer o dia, sequer a noite
nada , sequer o que tenha, sequer o que queira
nada reluz feito
..........brilha como
..........ofusca igual
nada é mais intenso que o alvo de teu olhar
que mesmo que não queira ainda vai me encarar.

(23/08/2008)

FRONTEIRA (OU UMA PEQUENA PROVOCAÇÃO)

Carlos Savasini

De além terras
além pampas
do além charco, charque, fronteira e plata
allá del hermano y del portunhol
nada
meu mundo acaba
quando acaba o Rio Grande.

(23/08/2008)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

OPÇÃO

Carlos Savasini

Parei de fumar
era risco de vida
o vicio que incha
relaxa meu corpo
esponja de vinho
explosivo.

(16/08/2008)

AMOR AOS PEDAÇOS

Carlos Savasini

que me pisam
que me esmagam
que me morde
em pedaços
as partes
que dela
me dominam

(16/08/2008)

ANCESTRAL

Carlos Savasini

Das profundezas do mar
além do sal, além do anil
das correntezas da fossa
além do abissal, além da escuridão
da destreza da vida infernal
além da coluna, do aríete, do invisível
das profundezas lodosas de lama e de mar
além do indizível, do infinito, do impossível
além do contralto, marcial, que emudece
emerge apenas uma voz
que deixou-me este poema
sem forma
e fez-me escrevê-lo
sem fim.

(16/08/2008)

domingo, 24 de agosto de 2008

DEPOIS DE AMANHÃ

Carlos Savasini

Já teve a vez o verso,
o canto, a voz, a rima, o verbo.

Já teve a vez o artista
artífice, arteiro, estrela e artesão.

Já teve a vez o velho,
o novo, o mito, o puro, o calejado.

Já teve a vez o certo,
o dia, instante, redenção e glória.

Já teve a vez a vez,
a verve, o veio, a febre, a cara de pau.

Já teve a vez a vez
já teve a vez o cara
já teve a vez as letras
já teve a vez.

Quem viu que conte a história.

(14/08/2008)

06:00 AM

Carlos Savasini

Recusa e permissão
dorme ainda a ousadia
a vista baça recusa
turvar a verdade ululante
: a clausura é certa
o desejo é certo
a vontade é certa
e as quirelas muitas.

(11/08/2008)

INTERSTÍCIO

Carlos Savasini

o futuro
por próximo que seja
agoniza
e aflige o sentimento
de quem vive
o momento mascado
a saudade
o por pouco que falta
o por pouco
agoniza
a saudade
a falta
o não

o não

(04/08/2008)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

RASCUNHOS POÉTICOS - 3 ANOS

Parece miragem, mas é verdade : o Rascunhos Poéticos está completando 3 anos de vida.

E tudo começou despretenciosamente, como um calafrio que toma conta do adolescente na hora do primeiro beijo. E tudo começou com o convite para fazer na Casa das Rosas os poemas conjuntos que faziamos há tanto tempo numa mesa de bar. E tudo começou do convite que virou a responsabilidade de criar um grupo de criação de poesia num templo que se chama Casa das Rosas. Quanta responsabilidade e quanto medo. Jamais sonhamos neste começo que o calafrio duraria 3 anos. Agora sonhamos num calafrio que vira mais 3 e outros 33 de muitos outros mais.

Assim, festejamos os 3 anos de Rascunhos Poéticos :

- Dia 17 de Agosto de 2008 (domingo)
- Às 17:00 horas
- No Villaggio Café
- Na Rua Teodoro Sampaio, 1229, Pinheiros, São Paulo, SP
- Com palco aberto para os poetas e músicos presentes

Pois apareçam com ovos, tomantes, poemas e calafrios nas mãos.

Bjs e abçs
CS

domingo, 10 de agosto de 2008

PROVAÇÃO

Carlos Savasini

Convite majestoso, quisto e aguardado
agrada o coração que tanto sussurrou
rogou por atenção e foi pisoteado
jogado ao largo, ao lado, ao léu e não chorou.

Convite majestoso, forte e desejado
agrava o doloroso frio que congelou
a guarda do convívio casto e alvejado
que, puro, preservou fulgor e não chorou.

Convite majestoso, firme, exagerado
provou do meu olhar surpresa e bom agrado,
sorriso, gratidão chapada e não chorou.

Convite majestoso, aquoso, me chamou
correu pelo desejo orgasmo e tão intenso
provou que todo amor só vale ao ser imenso.

(03/08/2008)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

FRAÇÃO

Carlos Savasini

O fogo, a pressa, o feito
a fuga, o pronto, as fezes
feições que não me atiçam
jogadas que não me comovem
trincheiras que não me contém.

De brasa e cinzel nas mãos
traçados, entalhes, contornos
detalhes formam aos poucos
feições que agradam meus olhos
de toques, de odores, sabores.

Calmamente o que fica
emerge frente ao mundo
e muda
fração por fração o que é visto amanhã.

(31/07–01–03/08/2008)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

POÇA

Carlos Savasini

pasmos
pés descalços no asfalto
espasmos
mãos descuidadas no orvalho
falsos
dentes dormentes no espaço
calmos
fósseis pingando de azul
manchas de mata borrão
nanquim na cor deste verso
e jamais
teu poema esquecido no espasmo
......................................no espaço
......................................no orvalho

(31/07/2008)

MARATONA

Carlos Savasini

Nem mais um minuto sem você
nem mais um instante sonso e só
corro atrás da hora da chegada
corro atrás do trem a jato, embalo
corro atrás de ti sem alça e mala
corro atrás de ti sem tino e fala
corro e corro e corro e corro e corro
corro atrás de ti, mulher amada
corro e chego agora, enfim, aqui.

(28/07/2008)

PRECE

Carlos Savasini

Por línguas, culturas e povos
além do que alcança o tambor
a dor é a mesma na busca
na cria e desenho de um deus.

A fé e o mistério concebem
narciso espelhado no céu
herói de HQ poderoso
de voz e contornos humanos.

Na dor, no vazio e na busca
nas carnes humanas tão fracas
no medo e na face da morte
surgiu um alento dos céus.

Por certo o que é certo é aqui
por certo o que é fato acontece
que deus, se ele houver, que me escute
e deixe que o homem se acerte.

(28/07/2008)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

MANEQUIM

Carlos Savasini

I

não me visto na camisa da poesia
sequer ela me veste
não paga minhas contas
nem dá-me pão sem manteiga sequer

não me visto na camisa dos outros
sequer eles me vestem
mas pagam minhas contas
e não o sagrado (impagável) que não me veste

não visto nada que não me convença
que não me contenha
que não me liberte
que não me queira bem

visto apenas o que creio
o que se amolda
o que liberta
o que é do bem


II

visto-a somente
de plumas e cinzas

(27/07/2008)

domingo, 3 de agosto de 2008

SULCOS

Carlos Savasini

Jamais é demais o desejo
a unha que arrepia a pele
agulha que acaricia os sulcos
o frisson dos seus ouvidos
do cone ao martelo, o sussurro
agudos e sub-graves no corpo
nas coxas
nas ancas
nas dobras
nas capas jogadas no chão
de papelão e vinil
dois corpos largados
e jamais, nunca mais
um corpo sem garras
um disco sem unhas
e desejo sem som.

(26/07/2008)

A QUEDA

Carlos Savasini

após o pós-guerra
pólos congelados
em curto-circuito
fechado

caribe murado
a leste do mundo
cortina de ferro
indelével

o pólo apagado
o gigante dorme
o mito do oposto
falece

qual a lança que agora fere ?
qual martelo ceifa o céu ?
qual águia segue só
pólo do pós-guerra
pólo incompleto
sem oposto
balança
e cai

(26/07/2008)

DESTRONADA

Carlos Savasini

Jaz a certeza ao longe, pequena e fria
arrasada e arrastada feita um meliante
sem cova, sem nome, sem pétalas de rosas
na alcova incerta de uma vala comum.

E segue feliz o inexato, a dúvida e o depois de amanhã.

(26/07/2008)

CATACUMBA

Carlos Savasini

Entre Nagasaki e Hiroshima
o meu coração
implode.

Ogiva de querer.

(21/07/2008)

CAI, CAI BALÃO

Carlos Savasini

Desejo momentâneo
frustração instantânea
pensamento
e bolhas de sabão.

(21/07/2008)

SINAL FECHADO

Carlos Savasini

Placas mudas nas ruas
mais limitam e proíbem minha busca
não levam meus passos aos teus
meus caminhos aos teus
: cruzamento inexistente.

(21/07/2008)