quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

QUE FICA

Carlos Savasini

Ao que fica, saudades,
lembranças que fecham os olhos
promessas que deixam pegadas
ternuras que deixam marcas
presente que existe em passado.

Ao que fica, lembranças,
olhares que fecham rabiscos
pés que prometem caminhos
linhos que alvejam os ternos,
seda em resgate, o casulo.

Ao que fica, promessas,
lenços que almejam os cílios,
ciscos que marcam caminhos,
restos que deixam sinistros
grãos aos trajetos de volta.

Ao que fica, ternuras,
restos de pó nos colírios
que raspam nos olhos do corpo
desculpa de um choro ruidoso,
lamento de um breu sinuoso.

Ao que fica, passado,
pasto que alimenta o descuido,
pasto que alimenta o desejo,
pasto em que falta o futuro,
pasto em que endireita o próximo
passo.

(08/02/2009)

VELUDO

Carlos Savasini

Manto negro de uma fera
veludo felpudo de anil e de pele
passeiam das ancas, do lombo e do peito
aos olhos e brilhos que vêem
desnudam o corpo de pele e de preto
corpo de massa, de carne e de garras
corpo de dentes, de manto e de negro.

(07/02/2009)

CACHOS

Carlos Savasini

Nos raios fleumáticos de um pensamento
tonteiam os cachos que caem cabelos
tornando o que pensa num sonho, um tormento
tecendo nos pelos os fios dos novelos.

Assim que o que pensa escorre e desmantela
o quadro que borra os tons das aquarelas
e mescla na tela tecida em cabelos
tonteira que aflige e perturba os desejos.

Assim o que fica deseja os olhares
pupilas e piscos, suspiros e preces
e dedos que tocam nas rugas que aqueces.

Pois veja que os fios que brotam são milhares
detém no que fica um toque atemporal
revelam que o bem tem um quê de amoral.

(07/02/2009)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

EM TEMPO

Carlos Savasini

Chegou a hora certa de alargar
passar a limpo os anos desta história
abrir as asas largas que assaltamos
das páginas de um livro empoeirado.

Chegou a vez de termos nossas rédeas
traçar irresolutos nossos passos
cravar no pó os próprios pés imensos
grafar de vez as próprias regras sãs.

Chegou o tempo certo de um rabisco
ser risco divisor de rio e mar
imenso qual o tempo que almejamos.

Chegou a vez de um certo tal rascunho
deixar de ser projeto promissor
e ser o grande corpo que teremos.

(01/02/2009)

DE ANIL E AMARELO (OU PARQUE SÃO DOMINGOS)

Carlos Savasini

Do parque copado
cercado de grades verdes
gotejam as flores.

(01/02/2009)

CHEGANDO

Carlos Savasini

Xaxins nas paredes,
plantas verdes e alguns pássaros
dão-nos boas vindas.

(01/02/2009)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

ARCO

Carlos Savasini

Das sete cores indiferentes
que escondem no horizonte o pote dourado
mentem : seu milagre está no céu.

(31/01/2009)

CIRCUNSCRIÇÃO

Carlos Savasini

No miolo das fôrmas de pão, grãos,
no fundo do ventre do anão, fome,
no centro das bolhas de sabão, sonhos.

No centro do centro, do centro, do centro
conceito,
vazio.

(31/01/2009)

SACI

Carlos Savasini

Que serei sem meus pés
que não galgam ciprestes, montanhas e nuvens ?
Que serei sem meus pés
que não calçam desejos, sonhos, nem asas ?
Que serei sem meus pés
que não pisam nos tetos, nas nuvens, nos astros ?
Que serei sem meus pés
que não criam raízes ?
Que serei
sem meus pés ?
Saci-pererê ?

(31/01/2009)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

HOJE E AGORA : ORDEM

Carlos Savasini

Hoje você é quem manda
seja cerveja, vinho ou groselha
gasosa, gim ou vermute.

Hoje quem manda é você
faça o seu maço e descerre as cartas
marque os passos que virão.

Hoje é você quem manda
perverta tudo o que espero
e guarde a surpresa seguinte.

Quem manda hoje é você
sem medo e receio de ser
a dona e a bola da vez.

Hoje quem manda é você
que vem e que dita o que é fato,
que vem e que diz o que é feito,
que vem e que dita o correto.

Hoje você é quem manda,
me ordena.

(30/01/2009)

CATADORES

Carlos Savasini

Ratos ao redor dos lixos
catam vidros, latas, cocos,
miram com seus olhos fixos
tudo o que lhes valham trocos.

(26/01/2009)

QUEM LÊ

Carlos Savasini

Descerre a primeira página,
leia o primeiro verso
e fecha os olhos.
O que vês ?
Nada, se não o que queres
deduzindo o segundo
e concluindo o terceiro.
Entender ?
Já o fizeste sem perceber.

(26/01/2009)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

SULFÚRICO

Carlos Savasini

Quando líquido
bebo-me embriagando
neurônios de alcoólico corpo.

Quando sólido
empoeiro-me e cheiro
entorpecendo os neurônios de pó.

Quando gasoso
solto-me ao vento
em nefasto gás de enxofre.

Chovo, então, em chuva ácida
que esgarça, enfim,
o pouco de corpo que resta de mim.

(24/01/2009)

MOSAICO

Carlos Savasini

Da geografia imponente dos morros
às curvas simétricas das calçadas
a pedra sabão faz bolhas no mar.

(24/01/2009)

PROMESSAS

Carlos Savasini

No aterro de sal e cal
se esconde o que ?
Garrafas de vinho,
lenços de seda
e beijos roubados.

No aterro de sal e cal
se esconde o que ?
Flores de Iemanjá,
velas de Aparecida
e canções de um Orixá.

No aterro de sal e cal
se esconde o que ?
Promessas de reveillon,
amores de final de semana
e esperanças de um novo amanhecer.

(24/01/2009)