sábado, 28 de março de 2009

CONTRA-FLUXO

Carlos Savasini

Olhos de mosca nos cantos
mil faces difusas no espaço
nas lentes de elétrons no espelho
sorriso na forma da lei
privado na forma da lei
da vista
e do irmão.

(12/03/2009)

REDUNDÂNCIA

Carlos Savasini

Rosas no jardim
sedosidade em pele
aroma em profusão
e espinhos
beleza e provação
obviedades
feito enaltecer as mulheres
lucidez em meio à loucura.

(12/03/2009)

sábado, 21 de março de 2009

VAZIO

Carlos Savasini

Nada reverbera em meus ouvidos
carros passam, passos, tudo ao longe.

Às cegas vozes não balbuciam palavras
não confessam segredos
nem histórias tristes.

Com ânsia e asco regurgito
vomito a mim mesmo
e nada me ocupa.

(09/03/2009)

GRUTA

Carlos Savasini

Oco,
eco
e redundância
de tudo
e nada.

(09/03/2009)

SERIA

Carlos Savasini

Se a história prostra
memórias
ficam nos sonhos frustrados.

(08/03/2009)

domingo, 15 de março de 2009

ENTRECAMPOS

Carlos Savasini

Se as flores não caem
sem tremer de frio e medo
o verão é calafrio.

(07/02/2009)

CORPO CONCRETO

Carlos Savasini

A alma das casas são corpos
são vivos que pousam nos quartos
são bocas que provam sabores
são olhos que miram detalhes
são mãos que buscam os livros
são mãos que podam os lírios
são mãos que limpam os corpos.

A alma das casas são vivos
são vozes que falam e gritam
são toques que buscam os outros
são gestos que afrouxam pudores
são gotas que molham os olhos
são veias que aplacam o sangue
são crânios que chocam os nervos.

A ama das casas são corpos
a alma dos corpos são gente
a alma da gente, agente e cada um de nós.

(07/03/2009)

TETO

Carlos Savasini

A morada, augusta, de meu corpo
limita em passos o trajeto de meus dias
trava em punho e dedos a levada desta escrita
em língua e palavras o fluxo do que penso.

A morada, curta, em que vivo
impinge à vida brevidade em que me ensaio
por toda provação que disfarço e rodeio,
floreio todo espinho em cacho e cores.

A morada, certa, que me aguarda
me abraça qual os galhos de um ipê
de flores mortas e amarelas no caminho
e poucos braços, poucos passos, vida e cal.

(07/03/2009)

MANGUE

Carlos Savasini

Do lodo e do mangue
do sangue e do breu
da terra e do sal
o leito rochoso
o magma
trovão e marés
restinga
vento e erosão
o soco
o bote da vida
eclosão de lesmas e amebas
sapos e rãs
pitus e golfinhos.

Se o lodo e o mangue
coaxam
: esperança de vida,
ressurreição.

(01/03/2009)

sábado, 14 de março de 2009

CADAFALSO

Carlos Savasini

Nas dragas do orifício
o fio do ofício
em linhas de cerol
tecem a camisa de força
que vestem o algoz
e o penduram na forca.

(28/02/2009)

VERBO ESCATOLÓGICO

Carlos Savasini

Verbo defecativo
imperativo
assertivo na onipresença
devassando as narinas
sentindo-se em qualquer canto.

Verbo defecativo
afirmativo
enaltecido no trono
imperador dos sentidos
quanto mais fedido mais vivo se faz.

Verbo defecativo
acusativo
diga-me o cheiro e digo quem és
ao ser conjugado
constrói por si qualquer existência.

(28/02/2009)

quarta-feira, 11 de março de 2009

TRAIRA

Carlos Savasini

Quando o baque é grande as palavras rareiam
qual no susto o ar retido nos pulmões
qual no soco o peito que pulsa e bombeia
qual na vista que cega e na mente que trava
por dentro no turvo breu do corpo que inflama
por fora no sangue que arroxeia nas ventas
cuspindo gotas e bolhas nos cantos da boca
mutilando os lábios e a língua na ponta dos dentes
e nada, nada reverbera nas cordas vocais
pasmando, assim, quando o Judas se encarna.

(25/02/2009)

sábado, 7 de março de 2009

AO ALÉM

Carlos Savasini

Abram-se as portas da esperança :
entramos esperando um breve fim,
chegaram a barba e os cabelos longos
agora esperamos que eles fiquem brancos.

(24/02/2009)

MOTO-PERPÉTUO

Carlos Savasini

Minimamente falando
todo fim
é recomeço.

(24/02/2009)

COVIL

Carlos Savasini

Aprisione, assim, os gases,
aspire arsênio e enxofre
e morra quer roxo ou amarelo.

(24/02/2009)

quarta-feira, 4 de março de 2009

PICOLINO

Carlos Savasini

Segunda, enfim, de carnaval,
trabalho hoje não, só depois,
o que me move é pessoal,
passional,
semente que rasga e queima.

(22/02/2009)

CONTIDA

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli

Palavra e fio de bigode
escorre sinuosa no labirinto
dos lábios.

Promessa e palavra empenhada
presa no limite dos dentes
não proferidas.

Punho em riste e pacto de sangue
lágrimas fecham a garganta
no grito não pronunciado.

(24/02/2009)

SEIVA E MARÉ

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli

ilumina a ponta do cigarro
fumaça envolve olhares e risadas
enrola o papel de seda e acende
maré que envolve os pensamentos
no rio noturno da cidade
ao som frenético da vida
brasa e maré, sorriso e balburdia
seiva de pé,
na morte agente descansa

(24/02/2009)

PALAVRA CERTA

Por Carlos Savasini e Osvaldo Pastorelli

Enquanto a leitura não vem
palavras mudas no papel,
enquanto o leite não ferve
goles de café sem açúcar.

Enquanto a tarde se faz
conversas emudecem vozes
risonhas no brilho da luz
ricocheteando nos copos de cerveja.

Enquanto a tontura não vem
garrafas circundam a mesa,
enquanto a ressaca não vai
promessas entortam a língua.

No papel, entretanto, a palavra
é a certa.

(24/02/2009)

segunda-feira, 2 de março de 2009

POIS, ENTÃO

Carlos Savasini

Que me acusem, que me julguem, que me culpem,
que me calem quando queiram e precisem,
que me prendam, que me queimem, que me açoitem,
me exorcizem feito o cão que ladra,
que me exponham, que me apontem, que enxovalhem,
me excomunguem feito o filho ateu,
que desdenhem, que desdigam, insinuem,
que contorçam as palavras e as posturas,
pois que berrem, pois que bradem, que beirem a loucura,
que exponham em seus rostos o feitio,
pois que existam, que se exaltem, que esbravejem,
pois que o tempo, fato em si, ajuste os restos.

(22/02/2009)

REFULGIR

Por Carlos Savasini, Osvaldo Pastorelli e Selda Roldan

No sorriso da noite
ouvi o brilho
do teu olhar
ofuscando a luz da lua
riscando o brinco do céu
em cada refulgir
da estrela
em teu corpo
sorrindo o brilho
da noite em teu olhar
em todo encantamento
encontrado naquele que ama
que ri
e brilha enfim.

(20/02/2009)

PIRATAS

Carlos Savasini

Ocupa-se as naus
rasga-se o sangue dos reis
: arma-se a nova bandeira.

(14/02/2009)