segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A SAUDADE

Carlos Savasini

Do forno o pão com manteiga
do bule o café
do relógio o badalo
da voz a vó que chama
e nem precisava (o perfume entrega)
e nem precisava (chamego não se nega)
e não precisava
deixar (assim) tantas saudades
que nem o perfume resgata.

(13/09/2008)

MORADA

Carlos Savasini

E o céu nasceu vermelho, entardeceu anil e dormiu esverdeado
a bile, entretanto, escorreu de azul celeste,
os pés de azul marinho
no carro de azul calcinha.

Absinto, amigo, sinto muito :
que as estrelas habitem o céu.

(13/09/2008)

PERFUME DE MULHER

Carlos Savasini

Essência de ti em vapor
vapor e neblina de odor
perfume nas roupas, na pele
no corpo e nas dobras do rosto
nas dobras e curvas dos nervos
odor de ti na memória
lembranças distantes de ti.

(13/09/2008)

domingo, 19 de outubro de 2008

ASSEPSIA DO FATO

Carlos Savasini

De fato :
contra fatos não há argumentos,
mas as desculpas são tão criativas.

(13/09/2008)

FÊNIX

Por Binho Santos, Bruno Furlan, Carlos Savasini e Samara Sieber

Quantas vezes o sol não bate para você ?
E o que você faz sobre isso ?
Quantas vezes jogaram você num poço sem fim
e o que você faz sobre isso ?

Você renasceu dos seus sonhos
resistentes à lava dos vulcões
de muitas outras várias falas !
Você soergueu as próprias ruínas,
plantou, replantou, ceifou
talos de margaridas,
as rosas remurcharam
para reflorescer ao fim do dia ...

Você renasceu nos beijos do sol
vivenciou o amor
no brilho das estrelas
e adormeceu entre
as ramagens das árvores
sentindo o aroma
das rosas do teu abraço.

Quantos vulcões calaram
quantos ventos mudaram
quantas rodas cercaram
estradas sem direção,
quantas vezes o sol
não fez o final do dia ?
Mas mesmo assim você persiste
você insiste e é maior do que os poços
sem fundo
você insiste, insiste, sobrevive
e é maior do que o sol
o mesmo sol que brilha para
você e para todos.

(06/09/2008)

PROCURA-SE

Por Binho Santos, Carlos Savasini, Leonice Tronco, Osvaldo Pastorelli e Samara Sieber

O que eu busco em você
é o que me falta ?
As raízes do seu ser
me aprisionam
ou me libertam ?
As suas palavras me calam ?

O que nos meus olhos, agora seus,
me refletem ?
Ou é o seu cheiro vago de ser
que me evapora no seu sol ?
Ou o que alegra
é sua angústia acasalada
nos meus braços ?

Ou a sua pele queimando
a minha pele ?
Ou o seu calor no calor
dos meus beijos
secos e úmidos
no aconchego
de nós dois ?

O que busco em você é o que completa
laços que libertam
palavras que acalmam
vínculos sem vincos e vícios
marcas que traçam caminhos
falas que buscam sentidos
ares que aplacam vapores
seu corpo etéreo me invade
o que eu busco em você –
seja feito de mim, de guerras,
abismos, de flores –
o que eu busco em você –
seja feito de pontes,
de fontes, de silêncios,
de carne ou de alma,
é você –
assim –
do jeito que você é.

(06/09/2008)

VERBO, VERSO : FETO

Por Binho Santos, Carlos Savasini, Osvaldo Pastorelli, Rosangela Siqueira Gaspareto, Samara Sieber, Selda Roldan e Yolanda Queiros Parreira

Que não falte o verbo, o verso, o feto
a verve entre poetas e veias
musas e mesas e rodas de amigos
que não faltem os jovens idosos que se mesclam
com sábios jovens alimentando e deixando-se
alimentar pelas musas
na mesa-poesia em que rolam conversas
teorias fatos ações que marcam
no tempo o verbo poesia.

Ah ! ... o verbo : de tudo o que umedece,
sua nas veias das rochas vermelhas,
de tudo o que pode sucumbir,
galga os meandros das estratosferas,
o verbo ... sangue para cactos de olhar !

Ah ! ... o feto : o líquido amniótico
escorrendo pela alma das palavras
as ditas, as caladas, as trancadas
as que fazem verso
e as que fazem espada.

Ah ! ... a palavra e seus delírios
o desejo e suas vertigens
os gritos estridentes das ruas
que fazem histórias, constroem dores
não vou falar de coisas intrigantes
que surpreendem a cada instante
quero mesmo é ter certeza
que convivo a cada instante
com a esperança de ser muito feliz ...
que as palavras não me faltem
que possa transcrever livre e feliz,
os sorrisos tão gentis, os olhares transparentes.
Nesta noite, nesta cidade, a alegria entre
a amizade e a poesia, vivemos o sonho mais feliz
o verbo mais intenso
o verso mais delirante
o feto mais promissor.

(06/09/2008)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

SOBRE O OLHAR E O PERCEBER

Carlos Savasini

Aquilo que não deixa mentir
aqueles
e os outros
que não deixam de ver
de crer
e perceber
que são os mesmos que não deixam mentir
que é o par que não deixa de ver
de vir
de entender
que o olhar não deixa mentir.

(13/09/2008)

5 MINUTOS PARA QUALQUER COISA

Carlos Savasini

Cinco vozes, cinco temas, cinco dentes
cinco garras nos pés, cinco plumas nas asas
cinco palavras descasadas
cinco tentativas desperdiçadas
cinco horas que não chega
cinco porres que não derrubam
cinco doses
cinco gotas de vômito
cinco tripas que não viram
cinco patas que não me seguram
cinco garras que não me cravam
cinco dentes que não me bicam
cinco asas
cinco nada que não me elevam
cinco horas que não chega
cinco goles
cinco porres
cinco gotas
cinco ciscos que não me levam além
cinco minutos de nada e silêncio e nenhum.

(06/09/2008)

INEFÁVEL

Carlos Savasini

Na busca da palavra impossível
vive o verbete inexistente
a página rasgada, o dicionário ausente
as letras que voam aquém
as notas que sorvem alguém
os poemas perdidos
a verve escondida
e a rima que não vem.

A palavra indizível
eclode
sem dizer a que veio.

(06/09/2008)