terça-feira, 29 de julho de 2008

APOCALÍPTICO

Carlos Savasini

De aflição e agonia
açoites sem anestesia
em saudosismo insosso
em paladar já oco
de palavras certas
cheias
certeiras.

De espinhos e estorvo
estratos de esteio
sublimam suportes
de espelhos trincados
imagens vazias
cinzas
sem vida.

De orgasmos e urros
ostentação sem humos
fumaça forasteira
de cheiro esparso
toques raros
rasos
rasteiros.

O céu perdeu-se de gás
a terra de fundo
o mar de fossa
o ser do outro
e o certo de porto.

(20/07/2008)

AURORA

Por Binho Santos, Bruno R Furlen, Carlos Savasini, Carmem Sanches, Osvaldo Pastorelli, Rosangela Aliberti e Samara Sieber.

No dilúvio dos copos
sorriem as espumas
nos cantos da mesa
escorrendo desejos
sortidos e esparsos
aquosos e fluidos
vida líquida
amniótica
correnteza
poço sem fundo
liberdade nos verbos
cruzamento de gestos
olhares, cadências

Dolentes, brisas perpassam as letras ...
Lentas, as frases sem verbos timbram
no papel a hora clara ...

Rara, a aurora da alma deslumbra ...
Rubra, a neve colore o vazio e vive
no umbral das campinas ... umbigo !

Canto de minh’alma, ecoa pelas pradarias
voa livre sem barreiras
até que um dia ...
os copos se quebram
nos rochedos
das angústias.

(19/07/2008)

MATIZES

Por Binho Santos, Carlos Savasini, Carmem Sanches, Osvaldo Pastorelli, Samara Sieber e Vitória Paterna.

Meu corpo se enrosca no copo da noite
e revela a plenitude de somente ser
encanto e mistério permeiam a madrugada
copo e corpo se mesclam na mente
o véu argênteo permite a translação
do ser em não ser e o que fosse, seria
meu corpo se enrosca no corpo do seu destino
entrelaçam-se os sonhos
enlaçam-se os medos
costuram-se nossas vidas
enquanto, num canto escondido,
mudo e escuro,
alimento o branco de sorrisos
que mordem os braços da noite
– e é ele, o teu único sorriso,
branco, vermelho, cor de crepúsculo,
da cor desse teu sangue
que pinta meu amor na tua pele.

Roço os olhos dessa pele ácida
dormida em flácido corpo
ouço os órgãos da palavra dita
e adormeço no corpo
da noite sonhando
como o ser único e pleno
envolto em noite negra
risos vermelhos
e sonho incolor.

(19/07/2008)

SINESTESIA

Por Binho Santos, Bruno R Furlen, Carlos Savasini, Carmem Sanches, Osvaldo Pastorelli, Rosangela Aliberti, Samara Sieber, Selda Roldan e Vitória Paterna.

Céu azul de anil e laranja
leve, livre e luxuriante
leva o firmamento frouxo
ao fluxo firme de fé em fissuras e feitiços
amaldiçoadas as horas em que me entreguei
ao vôo, ao copo, ao corpo
e na penumbra, sonhos inesperados
tornam-se claros
foge no auge, eu que te afogo em mim
eu, que subi até os estratos mais altos
para, sem véu, sem vácuo, amar-te vadio
sou gaivota, sou gestante, sou gente
gente que grita, gente que chora
gente que canta, gente que ora
que por hora quer ser feliz
na ágora, com todos, agora
eu, entre o que é céu e mar, sou ar
que penetra nos espaços descuidados
bato janelas, arredondo saias, lanço chapéus
com a força de corrente, sou ar corrente
na fimbria do ser
leveza que esbarra
nos móveis da alma
em sorriso de mesa alegria
sirvo o jantar na ampla sala
abro meus braços
e respiro o afeto do universo
do horizonte
deito meu corpo ao lado do teu
deito meu espaço ao lado do teu
leve e lancinante
lascivo
luxuriante
bendita a hora em que descobri
que minha vida seria tua.

Que cores tingem esta noite virgem ?

(19/07/2008)

domingo, 27 de julho de 2008

PONTO

Carlos Savasini

De fome, sede ou falta
de tristeza, ausência ou cirrose
de tempo, acidente ou bala perdida
toda morte é morte
todo fim é poético
de espinho na garganta
e flor no canto da boca.

(19/07/2008)

FALASTRÃO

Carlos Savasini

Desculpe, querido, passe :
a tua insolência farta,
o teu desajuste fica,
remendo que não se ajusta.

No teu relicário casto
o teu poemário falso
ilude o primeiro verso,
detona qualquer soneto
e mata qualquer poeta
de desgosto.

(19/07/2008)

DE PASSAGEM

Carlos Savasini

À Mário Quintana

Que passem os anos
mas passem feito fantasmas
ora invisíveis, ora inexistentes,
ora terríveis e temíveis feito a provação que impulsiona
feito a falta que busca, que move e que não prostra
feito o medo que provoca desejo e negação
feito o tempo que ora foge e nunca sobra
e ora re-visita o que passou.

Pois que passem os anos
que passem as horas
que passem instantes
e passem os outros,
menos eu e o passarinho.

(19/07/2008)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

EM TUDO, EM NADA

Carlos Savasini

A solidão é tudo em si. O excesso,
se não dos outros, das coisas,
é tudo além do próprio ser.

(18/07/2008)

RASTROS

Carlos Savasini

I

Nunca mais uma dose,
loucura pouca é bobagem :
ou ao céu as asas se estendem
ou ao inferno as mãos chafurdam.

II

Nunca mais meias palavras
ou meias verdades
ou meias mentiras :
meio copo vazio pede a sanidade acética
e meio copo cheio pede o porre homérico.

III

Nunca mais o silêncio agonizante
ou a verborragia vazia :
antes o muro que as forças neutraliza,
antes o campo que as forças dispersa.

IV

Nunca mais pouca loucura,
nunca mais pouca sanidade :
negro que é negro é preto e reluz,
branco que é branco é claro e ofusca.

V

Meu lado é o que deixa pegadas.

(13/07/2008)

A DOR DA ESPERA IV

Carlos Savasini

Aguardo sim, mas mesmo
assim não fico satisfeito
enquanto a solidão é sem você.

(18/07/2008)